Se nos fosse dado ser grandes, que caminho cada um de nós escolheria para chegar a essa posição? E o que definiria a grandeza de cada um? Enfim, o que realmente pode engrandecer uma pessoa? Vamos por partes, mas comecemos pelo caminho inverso, com alguém que era grande, o rei Davi, embora sabendo que isso lhe custou um longo e difícil processo.
Davi era soberano e líder máximo do povo de Israel. Ele tinha um exército fabuloso e bem treinado, e ganhou todas as guerras de que participou. Era temido pelos inimigos e amado pelo seu povo. Foi compositor, poeta, cantor e profeta. Seus Salmos, ainda hoje, tocam profundamente o coração das pessoas. Se tivéssemos que escolher um epitáfio para adornar seu túmulo, certamente poderíamos usar frases com rasgados elogios. A opinião do próprio Deus a seu respeito era: “Achei Davi, homem segundo o meu coração”.
Davi, porém, tinha uma ideia do seu próprio tamanho, expressa corretamente neste Salmo: “Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre” (Sl 131).
Temos, portanto, três visões em perspectiva. A visão das pessoas e a visão de Deus a respeito de Davi, assim como a visão de Davi sobre si mesmo. Assim acontece também conosco. As decisões que tomamos na vida partem sempre de uma dessas visões, ou mesmo de todas juntas. A ordem em que priorizamos cada visão, porém, é que determina a grandeza ou pequenez que teremos na vida.
O exemplo de Davi, embora distante na história, é singular e profundamente expressivo, pois serve de modelo, ainda hoje, para nos ajudar a ver corretamente a vida e vivê-la de modo intenso e produtivo.
Para Davi, Deus era único e tudo na sua vida, o ponto de partida e de chegada; não aquilo que pensava sobre si mesmo, ou o que os outros achavam dele. Seus Salmos falam insistentemente na grandeza de Deus como Rei e Senhor, apregoam a Sua sabedoria, testemunham o cuidado amoroso com os que sofrem, afirma a fortaleza que Deus representa para os abatidos etc.; mas também demonstram de um modo espetacular a sua intimidade com o Senhor. Ele dizia: “A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14).
Davi entendia que fora criado com um propósito divino, não era um mero fruto do acaso (Sl 139). O propósito maior era governar em nome de Deus, sendo amigo de Deus e amando-o sobre todas as coisas, para o louvor da Sua glória. Os Salmos de Davi eram, portanto, verdadeiros poemas de submissão, intimidade e amor a Deus.
A palavra poema vem da mesma palavra grega traduzida para criação e manufatura. Indica que nós somos uma “obra de arte” feita por Deus, não objetos de uma linha de montagem de produção em massa. Fomos planejados, o que, de certa forma, tomou o tempo de Deus. O resultado é uma obra-prima, exclusiva e feita sob medida, tornando cada ser humano único e especial. Davi celebrava isso em seus Salmos.
Nem sempre é possível evitar que as opiniões alheias nos influenciem, nem mesmo que nos causem algum dano, principalmente quando são injustas e infundadas. Davi, como qualquer um de nós, também era vítima dessas coisas. Todavia, em vários Salmos, o vemos de joelhos diante do Senhor, pedindo que Deus o proteja, que lhe faça justiça contra os seus inimigos; não exercendo justiça com as próprias mãos, embora o pudesse fazer, pois era o rei mais poderoso e influente de sua época.
Não poucas pessoas andam em busca de grandes coisas, ou lutam por reconhecimento. Muitos querem mais poder, mais dinheiro, mais disso, mais daquilo. Enfim, são testemunhas vivas de que a medida do ter jamais enche. Mas quem faz calar e sossegar a própria alma, só o faz porque sabe o caráter que tem e se vê na perspectiva correta diante da vida. Em outras palavras, não tem o coração soberbo, nem olha a vida de um modo altivo; antes, importa-se com o que Deus pensa a seu respeito. Como uma criança desmamada nos braços da mãe, confia em Deus e somente Nele coloca a sua esperança (Sl 131.2).
A razão pela qual tomei Davi como exemplo, é porque ele era um grande homem, em todos os sentidos. Era rei, rico, bonito, sábio, poderoso, famoso, enfim, tudo o que a maioria das pessoas de algum modo desejaria ser.
Infelizmente, não são poucos os que pensam que servir a Deus é só para os pobres e desvalidos. Mas Davi, com a sua história, contradiz tal falácia, assim como fizeram também muitos outros servos de Deus.
Servir a Deus não é somente o maior tesouro que se pode ter na vida, disponível a todos, é também o que verdadeiramente engrandece uma pessoa.
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém