Religião e cultura estão sempre intimamente ligadas, pois no centro de cada cultura existe alguma forma de fé. Como a religião é um conjunto de crenças e valores, a cultura funciona como a pele da religião, dando corpo e visibilidade ao que um povo crê. Uma vez que o ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26), por essa razão as culturas ainda preservam traços de beleza, verdade e bondade, como reflexos da graça comum do Criador.
Porém, todas as culturas – crenças, usos e costumes – foram maculadas pela queda e estão influenciadas pelo pecado, pois “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). O apóstolo adverte que, como resultado, “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos” (2Co 4.4), infiltrando “doutrinas de demônios” nas tradições humanas (1Tm 4.1). Isso resulta no fato de que nenhuma cultura é perfeitamente santa, verdadeira ou justa. No cerne de cada uma há o que os reformadores chamaram de “incurvatus in se” — o coração humano curvado sobre si mesmo, trocando a glória de Deus pela autoadoração (Rm 1.22-23).
O grande perigo espiritual está em confundir tradição cultural com revelação divina. Jesus enfrentou diretamente esta questão ao responder aos fariseus: “Por causa da vossa tradição, invalidastes a palavra de Deus” (Mt 15.6). A tradição dos anciãos exigia rituais de purificação, mas os líderes negligenciavam o mandamento de honrar pai e mãe (Mc 7.8-13). Jesus foi claro: a tradição, por mais antiga e bela que seja, jamais pode substituir a Escritura. O apóstolo Paulo ecoa esta advertência: “Cuidado que ninguém vos venha a enganar por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2.8).
A Igreja de Cristo, por ser uma comunidade histórica, tem uma rica herança cultural e teológica, à qual não deve jamais negligenciar, sob pena de correr o risco de se tornar espiritualmente empobrecida. No entanto, exatamente por ser Igreja, ou corpo de Cristo, não deve receber essa mesma tradição de um modo acrítico; mas, sobretudo, submetê-la a um rigoroso teste à luz das mesmas Sagradas Escrituras que prega e sob cuja autoridade vive.
Em outras palavras, se a tradição, mesmo travestida de ricos adornos culturais, não estiver de acordo com o que diz a Palavra de Deus, deve ser questionada. Por exemplo, se a tradição coloca outra pessoa no lugar devido unicamente a Cristo, isso evidencia que ela está a ferir o princípio fundamental do Evangelho, que é o Senhorio absoluto de Jesus Cristo sobre todas as coisas. Jesus disse: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 20.18). Isto torna explícito que o senhorio de Cristo e a Sua autoridade sobre a Sua Igreja, em geral, e sobre a nossa vida, em particular, deve ser absoluta e insubstituível.
Quando um indivíduo se arrepende de seus pecados e se converte a Cristo, começa a fazer parte de Seu corpo, que é a Igreja. O significado essencial da conversão é uma completa mudança de lealdade, pois deixamos de lado os ídolos aos quais reverenciávamos e passamos a servir única e exclusivamente ao Senhor Jesus. Desse modo, a Igreja não deve submissão a nenhum outro ser, como também não deve adorar a nenhum ídolo, pois só Jesus é digno “de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor” (Ap 5.12).
É bom sempre lembrar que não foi a tradição que nos deu a salvação, foi Jesus, pois “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12). A vida eterna foi dada por Jesus, não por anjos, ou santos, ou ídolos.
Quando a tradição diz o contrário, que algum outro ser deve ser colocado no lugar Deus; quando coloca outro mediador entre nós e Deus; então, essa mesma tradição elimina o conceito de Deus e subtrai a honra devida a Jesus, pois está escrito: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5).
Devemos, pois, estar atentos ao fato de que muitas vezes os valores culturais buscam substituir a fé pura e simples no Evangelho de Cristo. Essa sutileza que substitui valores espirituais por conceitos culturais é importante na proporção dos danos que causa. Se interfere no destino eterno de uma pessoa, distanciando-a de Deus aqui e para toda a eternidade, então deve ser levada em conta, reavaliada e descartada. Torna-se, portanto, necessário um novo processo de conversão, ou seja, uma mudança radical de rumo e de perspectiva.
A religião, que vem do termo “religare”, só é boa se nos religa a Deus. A cultura só é boa se não nos afasta de Deus. Acima destas, está o Evangelho de Cristo, que “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Assim, continuemos na sagrada tarefa de anunciar Jesus a todas as pessoas. Amém!
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém