“Se eu tivesse uma fórmula para evitar problemas, não a divulgaria. Se o fizesse, não estaria fazendo o bem para ninguém. Os problemas criam a capacidade de lidar com eles. Por isso, encare-os como um amigo, pois verá muitos deles e é melhor ter um bom relacionamento com eles”. (Oliver Wendell Holmes)
Imaginar uma vida sem problemas é como pensar em esportes sem desafios. A principal e grandiosa lição que a vida e os esportes nos fornecem é que torna-se absolutamente necessário enfrentar os desafios e obstáculos e problemas no caminho, e assim, fazer o que precisa ser feito para vencê-los; pois eles fazem parte da competição.
No conhecido Sermão do Monte, Jesus apresentou uma simples e poderosa mensagem sobre como não se deixar vencer pela preocupação com os problemas da vida. Ele disse: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6.34). E por que Jesus fez essa advertência? Entre as razões possíveis, podemos destacar duas. Por um lado, se conhecêssemos todas as coisas boas que acontecerão amanhã, estaríamos tão empolgados hoje como desapontados amanhã. E, por outro lado, se soubéssemos todas as coisas ruins do nosso futuro, sentimentos profundos como preocupação, medo e tristeza nos paralisariam hoje.
Não importa o tempo, todas as pessoas têm algo em comum: problemas! Não devemos ficar surpresos com isso, mas sim entender que os problemas fazem parte da vida. O fato é que nós conhecemos os problemas de forma íntima e pessoal: crises, perseguições, dívidas, falta de dinheiro, doenças, conflitos conjugais, tristeza, depressão, desemprego, enfim, a morte.
Alguns mestres “modernos” tentam empanar essa visão da vida criando “teologias” que procuram banir definitivamente os problemas, como se os mesmos fossem uma maldição. Mas, definitivamente, não são! Decerto, os problemas não são necessariamente bons ou maus. Eles são meramente problemas. Eles estão aí e teremos, cedo ou tarde, de enfrentá-los. E é neste ponto de enfrentamento que é decidido se os resultados serão bons ou maus. Portanto, não devemos nos surpreender que Deus nos permita passar por alguns problemas (1Pe 4.12). Os problemas podem, inclusive, revelar a verdadeira fibra moral da nossa alma e mostrar o nosso real valor na vida.
Por exemplo, a vida de José é um pungente testemunho dessa verdade. Traído e vendido como escravo pelos irmãos, falsamente acusado e lançado na prisão no Egito, José tinha todos os motivos para se inquietar com o amanhã e sucumbir ao desespero. Contudo, em cada provação, ele permaneceu fiel e proativo, confiando que Deus estava com ele. Anos depois, como governador do Egito, ele pôde dizer a seus irmãos: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem para que hoje eu salvasse muitas vidas” (Gn 50.20). Isso revela que o “mal” de cada dia era, na verdade, um passo no plano maior sob a direção de Deus.
O apóstolo Paulo enfrentou naufrágios, prisões, espancamentos e perseguições incessantes. Longe de se desesperar, ele via nessas tribulações uma oportunidade para a manifestação do poder de Deus e o aprimoramento de seu caráter, afirmando que “tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). Ele sabia que “a tribulação produz perseverança; a perseverança, caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Rm 5.3-4). Sua história demonstra que a capacidade de lidar com as adversidades é forjada no calor das provações.
Antes da tecnologia digital, para se revelar fotos, o filme tinha de ser levado primeiro a uma câmara escura. Só depois que os produtos químicos faziam o seu trabalho no escuro é que era possível expor os negativos à luz, e assim produzir a foto acabada. A luz que teria destruído o filme antes, agora revela a sua beleza. Passar por problemas na vida, portanto, é como passar na “câmara escura”. A vida de Jó é um exemplo pungente disso. Em meio à perda de todos os seus bens, filhos e saúde, ele passou por uma “câmara escura” de sofrimento inimaginável. Contudo, em vez de se amargurar, Jó clamou: “Eu sei que o meu Redentor vive”, reafirmando sua fé (Jó 19.25). Sua história culminou na restauração e bênção, revelando uma imagem de resiliência e confiança inabalável em Deus que só pôde ser “revelada” após a escuridão.
Se todos nós temos de passar por experiências difíceis, consideremos que essa é uma excelente oportunidade para Deus trabalhar a nossa vida espiritual. Ao enfrentarmos dificuldades, tristezas, decepções e frustrações, é na “câmara escura de Deus” que a imagem de Cristo é revelada em nós. Só então estaremos prontos para ser exibidos na luz da vida. O profeta Jeremias, sabendo disso, afirmou: “Ele me colocou em lugares escuros… É bom confiar e esperar silenciosamente pela salvação do Senhor” (Lm 3.6,26).
Portanto, não centralize a sua atenção em culpar pessoas ou circunstâncias por causa dos vales escuros de frustração e desespero pelos quais esteja passando. Embora eles possam ser a causa secundária, coloque o seu foco na ação de Deus em sua vida e aprenda a reconhecer os benefícios das momentâneas escuridões.
Não se desespere por causa dos problemas, antes enfrente-os resolutamente. Fugir dos problemas é como se expor à luz cedo demais e estragar o filme. Espere a hora de Deus, não estrague a impressão do Seu amor no filme da sua vida. Portanto, deixe o Senhor trabalhar a beleza da semelhança de Cristo dentro de você para poder exibi-la na galeria dos heróis da fé, aqui e na eternidade.
Pastor da Assembleia de Deus em Belém