Certo mestre, ao ensinar seus alunos o quanto é importante enxergar o próximo pelo seu valor intrínseco como pessoa e amá-lo, perguntou-lhes: “Como podemos saber que a noite é finda e o dia está raiando?”. Um dos alunos respondeu: “Quando vemos uma árvore à distância e sabemos se é uma mangueira ou um jambeiro”. “Quando vemos um animal e sabemos que é uma raposa, não um lobo” – respondeu outro. “Não” – disse o mestre. Os alunos, confusos, esperam a reposta. Ele calmamente respondeu: “Sabemos que o dia está raiando quando vemos outra pessoa e sabemos que é nosso irmão ou irmã. Do contrário, não importa a hora, ainda é noite”.
Jesus ensinou que “amar o próximo com a si mesmo” é a luz crucial que consolida as relações humanas, expulsando as trevas que limitam a nossa liberdade no trato social e sanando suas angústias (Mc 12.33).
O sábio Salomão disse: “A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv 4.18). E o dia só será perfeito quando olharmos o próximo pelo que Deus lhe conferiu de dignidade, não por causa de aparências, títulos ou conveniências sociais, mas pela marca do Criador em cada ser humano. Isso é o verdadeiro fruto do amor. É uma pessoa, merece respeito. É alguém por quem Cristo morreu, merece respeito. E respeitar as pessoas, não importam as diferenças, é uma forma inconteste de demonstrar amor por si e pelo outro.
Creio que essa verdade perpassava a mente de Jesus quando se dirigiu aos discípulos e recomendou a “receita” que os identificaria como “seus discípulos” perante o mundo: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35).
Uma das mais sutis formas de desrespeito é o não reconhecimento do labor de alguém, só pelo fato de seu trabalho ser “diferente”. Não enxergar ou desrespeitar diferenças é o mesmo que querer fazer um jambeiro parecer com uma mangueira; ou o lobo parecer com uma raposa.
O saber limitado carrega em si um monte de preconceitos, exatamente por dar um verniz de cultura à própria ignorância. E quando a insipiência não consegue ajudar, apenas o olhar do coração poderá nos fazer ver o que a mera aparência distorce. O problema de muitos “iluminados” está em não reconhecer o seu real valor e, por isso, vir a enxergar os outros com o mesmo preconceito com o qual se julga.
Toda sociedade – quer seja um país, uma cidade, empresa, igreja etc. – precisa funcionar “como um só corpo”, sabendo que todos os seus membros são absoluta e indistintamente necessários. Como expôs Paulo: “O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários” (1Co 12.20-22).
Às vezes queremos ser exclusivistas, achando que a graça de Deus achou o “caminho certo” em nós, e que todos os outros estão errados. Foi o que ocorreu com os discípulos de Jesus, que proibiram certo homem de expelir demônios em nome de Jesus, simplesmente “porque não segue conosco”. Mas Jesus lhes disse: “Não proibais; pois quem não é contra vós outros é por vós” (Lc 9.49-50).
Pedro aprendeu a lição, e disse: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Para alguns, a graça é uniforme; é a “minha” graça, o meu jeito de fazer as coisas. A lógica perversa é esta: se nossos métodos são diferentes, então o “outro” tem de estar errado.
Portanto, responda: “Quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Co 4.7).
Assim, não devemos de modo algum confundir graça com conivência, nem humildade com frouxidão moral, tampouco “deixa como está para ver como é que fica” com “vai e não peques mais”. Pois o certo é que “cada um dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14.12).
Eu vejo que dia está raiando e é preciso enxergar os meus irmãos. Amar é servir, é respeitar uns aos outros em suas diferenças, acolher os mais frágeis, cuidar dos necessitados, fazer o bem e temer a Deus, buscando agir com sabedoria em tudo, na graça que Deus supre. Afinal, amar é o passo a passo iluminado pela graça de Deus que nos fará verdadeiramente conhecidos como seguidores de Cristo.
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém