Você já parou para observar uma gota d’água? Sim, uma pequena gota d’água se equilibrando teimosamente na ponta de um frágil ramo, desafiando o tempo! Talvez você pense: É apenas uma gota, que diferença isso faz?
Foi apenas uma gota que motivou uma equipe de publicitários a criar uma campanha contra a corrupção na cidade de Hong Kong. Eles invadiram a cidade com pôsteres que mostravam uma única gota caindo em uma piscina, trazendo uma frase: “Hong Kong contra a corrupção”. A mensagem da campanha era que a integridade ou a desonestidade permeia a cidade em cada pessoa. Em outras palavras, é fácil se enrascar com pequenas coisas porque elas parecem não fazer diferença numa sociedade de grandes dimensões.
Parece estranho que a indignação que, vez por outra, toma conta da sociedade brasileira em decorrência da constante e endêmica corrupção na esfera pública, logo arrefeça e vá paulatinamente diminuindo. A decepção, que deveria ser cada vez maior, aparece cada vez menos. Será que a sociedade está sendo permeada pela desonestidade?
Sempre temos algum sinal de que nem tudo está perdido. Há sempre uma diferença que apenas uma gota pode fazer, quando cada pessoa que anseia por mudança, e deseja ardentemente justiça, e luta pelo direito de construir uma sociedade saudável, e expressa desaprovação moral por comportamentos socialmente perniciosos, e que, embora se sinta apenas “uma gota”, sabe que pode contribuir para estabelecer uma sociedade virtuosa. Mas como construir uma sociedade virtuosa? Uma sociedade que prima pela virtude só pode ser criada por pessoas virtuosas, cujas consciências individuais preservam o comportamento e o mantém responsável.
Sem a consciência da virtude, uma sociedade só pode ter um relativo controle se usar a coerção em larga escala. Mas até mesmo a coerção falha, em última instância, pois nunca haverá força policial suficiente para manter os olhos em cada indivíduo. Assim, se somos uma sociedade com 210 milhões de pessoas, cada um de nós deveria, em tese, ser uma consciência em guarda. Como geralmente não procedemos assim, não somente temos mais crimes como precisamos sempre de mais policiais nas ruas.
Infelizmente, fala-se muito em justiça social sem levar em conta a virtude particular, o que é errôneo e perigoso. Torna-se inevitável que um povo sem moralidade pessoal falhe em seus esforços de criar moralidade pública. Alguém disse que “não há pecado social sem pecado pessoal”. A desconexão entre os âmbitos público e particular tem a sua raiz no mito iluminista de que o ser humano é essencialmente bom.
Numa sociedade em que nenhum estigma moral é permitido, por medo de prejudicar a autoestima de alguém, não é de estranhar que muitos falem superficialmente: “O que o homem público faz da sua vida particular não importa a mais ninguém”. “Rouba, mas faz”. “É patife, mas prega bem”. Como racionalizar que uma pessoa possa comportar-se como velhaco, mentiroso ou fraudulento na vida particular e, ainda assim, devamos confiar em sua vida pública?
A base da visão cristã sobre a natureza humana, ensinada por Jesus, é definida nisto: uma árvore boa que produz bons frutos e uma árvore má produz maus frutos (Mt 7.17). Jesus também disse: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; quem é injusto no pouco também é injusto no muito” (Lc 16.10). Em suma, integridade é uma questão de caráter, e isso passa por grandes e pequenas questões, por ações públicas e particulares; e quem falhar nas menores, certamente falhará nas maiores.
Ora, se é fácil comprometer-se com pequenas coisas porque elas parecem não fazer diferença, especialmente numa sociedade de grandes dimensões, alguém pode pensar: “Por que não alterar a verdade, não maquiar os relatórios de despesas, não utilizar o horário de trabalho para coisas pessoais, pregar e não viver o que prega? Por que não, se todo mundo faz? Ora, sou apenas uma gota num vasto oceano!”
Na verdade, nem todo mundo faz, talvez só uma minoria de aproveitadores. A maioria, calada e impassível, faz com que cada pessoa acabe pensando que é apenas “uma gota”. Como disse Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada, porque só pode fazer um pouco. Para que o mal triunfe, só é preciso que os bons nada façam”.
Precisamos, sim, continuar nutrindo um firme sentimento do que é certo e errado, segundo os padrões morais bíblicos, aliado a uma inabalável determinação para colocar adequadamente em ordem a nossa própria vida. A partir daí, poderemos pensar em mudar a sociedade. Assim, continuemos “abençoando as pessoas”, em fazer o melhor para resgatá-las para a vida eterna; sigamos “cuidando do meio ambiente” onde vivemos.
Você pode parecer apenas “uma gota”, assim como eu. Se todos nos juntarmos, formaremos um filete de água, depois um córrego, até virar uma torrente que, finalmente, poderá lavar e restaurar a alma da nossa nação!
Decida-se a ser também “uma gota” que faz a diferença!