A sabedoria de saber esperar

O questionamento de Pedro a Jesus – “Senhor, por que não posso seguir-te agora?” (Jo 13.37) – ecoa uma inquietação comum à nossa experiência espiritual. Muitas vezes, em nossa fervorosa disposição, nos deparamos com um “não” da parte de Deus, ou com uma incômoda estagnação que desafia a nossa compreensão. Nesses momentos de incerteza, quando Deus parece nos apresentar um vazio, a tentação é preenchê-lo imediatamente com nossas próprias soluções ou impulsionar as coisas segundo a nossa vontade. No entanto, a sabedoria divina frequentemente reside na espera e na paciência.

O dito popular preceitua que “a pressa é inimiga da perfeição”; e isto serve para todos os aspectos da vida; e, principalmente, nos traz um lembrete crucial: a pressa é também inimiga da revelação e da formação do nosso caráter.

Ora, Deus pode estar usando esse “espaço em branco” em nossa vida para nos ensinar lições profundas sobre integridade, preparando-nos para um serviço genuíno que só pode florescer na operosidade de uma fé que vem de um coração purificado e um espírito voluntário. O rei Davi, em seu momento de maior fraqueza, orou por isto (Sl 51.10-12).

Assim, jamais devemos nos antecipar à orientação divina. Qualquer vestígio de dúvida, por mais sutil que seja, deve ser um sinal de alerta de que essa direção não vem de Deus. A cautela, nesse caso, não é falta de fé, mas sim um reconhecimento humilde da soberania de Deus e da necessidade de entendermos o Seu tempo perfeito. Se houver a mais leve hesitação, é preferível aguardar.

O risco de agir por impulso é grande. Podemos perceber claramente uma “vontade de Deus” inicial – talvez romper uma relação ou iniciar um novo empreendimento – e, movidos por um sentimento sincero, mas ainda imaturo, agir precipitadamente. Tais ações, embora bem intencionadas, podem gerar emaranhados morais e consequências sociais dolorosas que levam anos para serem desfeitas, a um custo emocional e espiritual altíssimo.

O exemplo de Pedro ilustra isso perfeitamente, quando declarou: “Por ti darei a própria vida” (Jo 13.37). Ele queria, com toda sinceridade, simplesmente enfatizar: “Senhor, estou pronto a ir contigo até para a morte!” Notemos que a sua veemência era inegável, mas a sua autoconfiança era ingênua e excessiva. Ele tentou prever a prova de sua fé, mas esta veio de uma maneira completamente inesperada e avassaladora. Jesus lhe respondeu com a dura verdade que Pedro ainda não podia aceitar: “Em verdade, em verdade te digo que jamais cantará o galo antes que me negues três vezes” (Jo 13.38).

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). Esta máxima se encaixa na situação de Pedro. Sua declaração, embora fervorosa, revelava uma profunda falta de conhecimento de si mesmo, de suas próprias fraquezas sob pressão, bem como a verdadeira natureza de sua devoção. Jesus não apenas conhecia Pedro mais profundamente do que ele próprio, mas também sabia que sua devoção, naquele momento, ainda era impulsionada por uma força natural e efêmera, suscetível a falhas e negação sob duro teste. Não podia seguir a Jesus de imediato porque ainda não havia olhado para dentro de si e reconhecido sua própria fragilidade.

Uma devoção meramente natural pode nos impulsionar em direção a Jesus, nos fascinar com Seus ensinamentos e milagres, ou nos fazer sentir o Seu fascínio, mas jamais nos transformará em verdadeiros discípulos dispostos ao sacrifício real. Essa devoção superficial, cedo ou tarde, cederá diante das adversidades, resultando em negação ou abandono, como ocorreu com Pedro em seu teste crucial.

A verdadeira devoção não se baseia em sentimentos voláteis ou autoconfiança ilusória. Ela se manifesta em um amor genuíno e incondicional a Deus, expresso através da obediência pronta e irrestrita aos Seus mandamentos, advindo de um coração transformado. Por isso, Jesus disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Porque esta é a verdadeira essência da devoção autêntica: um amor que se traduz em ação, pela graça e poder de Deus.

Todos nós vivemos na pressa do tempo chronos (o tempo cronológico e quantitativo de horas, dias, anos etc.); e, na maioria das vezes, não temos ideia do tempo que perdemos na vida quando nos apressamos ou tentamos passar “na frente de Deus”. Devemos ter em mente que Deus age no tempo e do modo certos.

Tempo e modo certos: esse é o binômio do sucesso. Há, pois, um momento especial e decisivo em que algo memorável da parte de Deus acontece, um tempo que não pode ser controlado pelo homem, pois é exclusivo de Deus, e que precisa ser aproveitado por nós em sua inteireza.

Quando confiamos em Deus e esperamos pelo Seu tempo, agindo com um coração humilde e submisso à Sua vontade, Ele opera em nosso favor, sem causar mágoas ou desapontamentos; e ainda nos capacita a servi-lo de maneira que transcende nossas próprias capacidades naturais e impulsos humanos.

Portanto, não se apresse, confie no Deus que chamou você para um grande propósito, quanto ao qual vale realmente a pena esperar o tempo propício de Deus, que cumprirá em seu favor a Sua boa, agradável e perfeita vontade. Amém!

 

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

CADB

CADB

Convenção da assembleia de Deus no Brasil

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