Sabe-se que a Páscoa foi instituída, originalmente, como a festividade símbolo da libertação do povo de Israel do Egito, no evento conhecido como Êxodo. O Senhor Deus emitiu uma ordem específica ao Seu povo, cuja obediência traria a proteção divina e a consequente libertação da escravidão egípcia. Cada família deveria tomar um cordeiro sem defeito, sacrificá-lo e comê-lo assado. Depois deviam passar o sangue do cordeiro nos umbrais e nas vergas das portas, pois o Anjo da Morte percorreria a terra e passaria por cima das casas que tivessem o sinal do sangue, poupando os seus primogênitos. Daí o termo Páscoa, do hebraico pesah, que significa “passar por cima”, ou “poupar”. (Êxodo 12)
Depois que o povo de Israel saiu do Egito, Deus ordenou que se celebrasse continuamente a Páscoa como um memorial dessa libertação. Na semana da crucificação de Jesus certamente esse rito foi seguido.
Estima-se que cerca de 250 mil cordeiros eram mortos, no período de duas horas, por seiscentos sacerdotes, o que tornava toda Páscoa mais ou menos “igual”, repetitiva. O sangue desses sacrifícios escorria até o ribeiro Cedrom, cujas águas ficavam densas e tingidas de sangue. Tudo permanecia igual; mas só até àquela última Páscoa, que foi diferente de todas as demais, pois ali Jesus, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, foi morto para nos salvar da escravidão do pecado.
Assim, pois, a semana que mudou o curso da História teve uma pessoa especial como seu protagonista: Jesus Cristo, o Filho de Deus. A semana da Páscoa foi definidora para a História, não por causa de sua religiosidade festiva, mas porque a humanidade passou a ter uma real possibilidade de ter acesso ao plano divino de salvação eterna e de reatar a sua comunhão com Deus.
A semana da Páscoa foi riquíssima em acontecimentos inusitados. Jesus fez assombrosas revelações proféticas a respeito do futuro da humanidade, falou de Sua própria morte como um sacrifício necessário e indispensável, e anunciou a abjeta traição por um “amigo” (Mateus 24 a 26). Do lado oposto, Sua morte foi selada em um pacto de traição e os inimigos se organizaram para acusá-lo de graves blasfêmias e dar cabo de Sua vida.
Mas o que estava por trás dos acontecimentos, algo que só Jesus podia ver, era o plano divino de redenção da raça humana, possibilitado pelo Seu próprio sacrifício expiatório. Desse modo, a Páscoa era o pano de fundo de onde se desenrolou o enredo da paixão de Cristo e de onde brotou a nossa esperança eterna.
Jesus incomodava demais com Sua mensagem clara e contundente, pois anunciava que o Reino de Deus estava próximo e que, para entrar nele, era necessário arrependimento e conversão. Tudo contrário à pregação de regras e à adoração formal dos rituais religiosos da época. Tanto que as autoridades judaicas queriam matá-lo.
Jesus, porém, se encaminhou resolutamente para Jerusalém, pois sabia que ali, exatamente durante a Páscoa, é que se cumpriria a libertação espiritual que a própria festividade exemplificava. Nada poderia detê-lo, pois Ele estava pronto para o sacrifício de morrer pela humanidade. Mais que isso, Ele sabia que a Sua morte vicária era a única esperança para a humanidade caída.
O simbolismo profético da Páscoa hebraica referia-se a “sombras das coisas futuras”, ou seja, um evento ainda por vir, que era a Redenção efetuada por Cristo. Paulo afirmou: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5.7). Assim, o cordeiro pascal morto servia como modelo antecipado do sacrifício de Cristo na cruz pelos nossos pecados.
Em suma, a Páscoa simboliza três coisas: liberdade da escravidão, salvação da morte e caminhada para a terra prometida. Para os hebreus, isso tinha um sentido físico, pois havia a escravidão do jugo egípcio a ser subvertida, uma morte ignominiosa iminente a ser suplantada e a esperança de uma terra a ser conquistada.
Para nós, hoje, há o sentido de natureza estritamente espiritual, pois precisamos ser libertos da escravidão do pecado e salvos da morte eterna, caminhando avante na certeza de que um dia “estaremos para sempre com o Senhor” em Seu Reino eterno.
Esta semana é, portanto, muito importante para todos nós. Precisamos fazer deste momento uma oportunidade de reflexão, verificando a posição em que estamos diante de Deus, se em comunhão ou distantes.
Na Páscoa, obviamente, não cabe o sentimento misto de tristeza e compaixão pela morte de Cristo, como se Ele ainda estivesse impotente na cruz ou inerte no túmulo. Antes, a Páscoa deve ser comemorada com alegria, pois Sua morte e ressurreição apontam para a libertação que Jesus nos propiciou (Rm 4.25). Se Cristo não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã e nós seríamos os mais infelizes de todos os homens (1Co 15.19). Mas Cristo ressuscitou! Ele vive! E porque Jesus está vivo, a nossa esperança é eterna.
Ainda ressoam no Universo a palavra dos anjos às mulheres: “Buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; Ele ressuscitou, não está mais aqui”. É isto que torna a semana da Páscoa importante, pois nela o destino do mundo foi mudado por Jesus Cristo. Feliz Páscoa!
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém