Há situações que nos marcam indelevelmente, principalmente pela simplicidade com que ocorrem e pela profundidade que representam. Lembro-me de que, na noite em que um de meus filhos terminou o curso colegial, há mais de vinte anos, logo depois da solenidade, saímos em família para comer alguma coisa nas Docas. Ao entrarmos em um pequeno restaurante, algumas pessoas começaram a nos olhar. Depois chegou uma garçonete e me saudou com “A paz do Senhor”; logo após, outro garçom, e mais outro também nos saudaram. Eram todos crentes em Jesus.
Uma jovem garçonete, membro da Assembléia de Deus, disse-me que não podia comparecer aos cultos porque trabalhava todos os turnos do dia, muitas vezes até alta madrugada. O único consolo que tinha quando voltava para casa era assistir à programação da televisão Boas Novas, pois era quando podia se alimentar espiritualmente através dos cultos e pregações. A sua maior vontade – disse-nos com emoção – era ter um templo da nossa Igreja nas proximidades da sua casa, algo pelo qual ela e uma amiga estavam orando intensamente. Ela estava lutando para juntar algum dinheiro, pois pensava, inclusive, deixar aquele emprego para poder se congregar regularmente na Igreja. Ela dizia à amiga: “Um dia veremos no Boletim da Igreja a notícia de que será inaugurado um templo no nosso bairro. No dia em que eu me encontrar com o pastor, vou perguntar-lhe porque não há um templo aqui perto para nos congregarmos”. E ali estávamos, ouvindo os anseios dessas jovens e preciosas vidas.
A “fome” pela Palavra de Deus daquelas jovens deixou-me sobremodo admirado. Esse é o tipo de sentimento que nós temos de preservar, como igreja, senão perderemos o sentido e a razão da nossa existência. Lembro-me de que aquela conversa mexeu comigo, vindo como mais uma confirmação de que teríamos de avançar no cumprimento da ordem de Jesus (“Ide e pregai o Evangelho”) de uma forma ampla e objetiva, como uma evidência adicional de que realmente nos importamos com a nossa cidade.
E assim, intensificamos a nossa ação com uma Grande Marcha de Evangelização, inicialmente nos bairros Terra Firme e Guamá (por ocasião das festividades dos 92 anos da Igreja em Belém), quando fomos de casa em casa para abençoar as famílias, de modo que nenhuma casa ou pessoa ficasse sem que um homem ou mulher de Deus orasse por ela e a abençoasse em nome de Cristo Jesus. Logo depois, intensificamos a nossa ação evangelizadora nos demais bairros da cidade.
O desejo do nosso coração é ver, como resultado da nossa obediência à ordem de Jesus Cristo, uma considerável diminuição da violência e a pacificação das relações sociais, a cura de muitos enfermos e, principalmente, a conversão e transformação de indivíduos e suas famílias, algo que só o Evangelho de Jesus Cristo, que “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”, pode fazer (Rm 1.16).
Isto porque sabemos, com absoluta certeza, que o Evangelho pode proporcionar não somente mudanças individuais, mas também melhorias sociais significativas, pois em todo lugar onde as pessoas abrem o coração para o Espírito Santo de Deus e, arrependidas de seus pecados, recebem a salvação, as bênçãos de Deus em Cristo são derramadas sobre suas vidas outrora vazias e sedentas de sentido. E assim, multidões de pessoas são radicalmente mudadas, e a sociedade, por sua vez, melhora sensivelmente.
Há 115 anos, a nossa querida Assembleia de Deus em Belém, seguindo e obedecendo ao mandamento de Jesus para evangelizarmos e fazermos discípulos, está se esforçando também para minorar o infortúnio de alguns. Seguimos pregando as Boas Novas do Evangelho do Reino, bem como nos esforçando para cuidar dos necessitados e repartir o pão com os que nada tem.
Por isso, há décadas, sempre no primeiro domingo do mês, celebramos a Santa Ceia do Senhor, na qual desfrutamos da comunhão com Jesus Cristo como Seu Corpo na terra; e assim, ao compartilharmos do Pão da Vida, que é Jesus, somos edificados para continuarmos na bendita tarefa de anunciá-lo a todas as pessoas. Nessa ocasião especial, Deus move o coração dos nosso irmãos e irmãs para doarem alimentos aos que têm fome, colocando a nossa comunhão em prática e ajudando a diminuir os sofrimentos dos que têm tão pouco; e em fazendo assim, queremos que essas pessoas sintam o amor e o cuidado de Deus por elas.
Há muitos necessitados que passam fome. Há também os que têm um outro tipo de fome, a fome de ouvir a Palavra de Deus. Por isso, queremos enviar para cada bairro, para todas as ruas, de casa em casa, verdadeiros discípulos de Jesus para serem instrumentos das bênçãos de Deus a todos os que precisam.
Oro para que todos os crentes em Jesus possam ouvir o desafio do Senhor: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” E que cada um responda: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6.8). Pois é “tempo de anunciar Jesus a todas as pessoas” e dizer-lhes que “hoje é o dia da salvação”. Amém!
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém