Certo adolescente tinha uma marca de nascença que lhe tomava quase a metade do rosto. Mas em vez de se sentir inseguro ou com vergonha de si mesmo, mostrava uma inabalável segurança em sua autoestima; ademais, mantinha um bom relacionamento com os colegas e era querido por todos. Ele parecia não ter consciência de sua aparência, de modo que sempre lhe perguntavam o porquê dessa anomalia e por que não se incomodava.
Ele respondeu: “Desde que eu era pequenino, meu pai começou a dizer-me que eu tinha a marca de nascença por dois motivos: primeiro, porque um anjo me beijou; segundo, para que Papai do céu pudesse me achar no meio da multidão”. E acrescentou: “Meu pai me contou essa história tantas vezes e com tanto amor que, quando cresci, comecei a ter pena das outras crianças que não tinham sido beijadas por um anjo como eu”.
Embora o filho não tenha sido beijado por um anjo e nem Deus precise pôr um sinal em alguém para reconhecê-lo, aquele pai tinha um discernimento teologicamente correto em um ponto. Ele fez o seu filho entender que marcas de nascença ou deficiências físicas não são uma maldição, não provém de um julgamento divino; antes, porém, podem se tornar em bênção, quando admitimos que Deus não olha para a aparência física e pode nos dotar de abundante graça na vida.
O problema é que vivemos em um mundo tomado pela ideia de que o que importa não é a realidade, e sim a aparência; não é o que você é, mas o que parece ser. A conexão entre beleza e felicidade é tão evidente, que se alguém tem algum defeito ou não possui beleza, seu destino é ser tratado como “sucata da humanidade”.
Hoje, há drogas injetáveis para quem se recusa a envelhecer; há abundantes programas de dieta, nem tanto pela saúde, mas para ter um belo corpo; academias de ginástica proliferam e prometem esculpir corpos malhados e bonitos; cirurgias plásticas se tornaram imensamente acessíveis aos endinheirados e são o caminho mais fácil para refazer o corpo sob encomenda. Vivemos numa cultura intoxicada pelo culto da beleza e pela divinização do corpo.
Essa obsessão pela aparência física gera o subproduto da “epidemia de inferioridade”, a qual acomete pessoas que, por serem comuns e não terem nascido com uma confluência maravilhosa de genes, gostariam de estar do outro lado. É esse filão que os profissionais da publicidade e propaganda exploram.
O fato é que nascemos com um desejo legítimo de ter significação. Isso é uma bênção de Deus e deveria nos levar ao equilíbrio entre a ênfase apropriada no caráter e o cuidado conveniente pelo corpo. Mas como nossa cultura prima pela apreciação da beleza acima do caráter, muitos procuram se empenhar em satisfazer seus padrões de aceitação, pois desejam desesperadamente a aprovação dos outros.
É tudo uma questão de valores. Portanto, é hora de nos voltarmos aos valores cristãos fundamentais, ao fato de que somos criados por Deus, temos um valor intrínseco conferido por Ele, somos amados pelo Senhor a partir do que somos e não pelo que parecemos ser.
Quando o profeta Samuel foi enviado por Deus para ungir um rei para Israel entre os filhos do belemita Jessé, seus sete filhos mais velhos e bem-apessoados desfilaram com suas melhores roupas diante do velho profeta. Porém, o Senhor rejeitou todos eles. Diante da perplexidade de Samuel, Deus lhe respondeu: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (1Sm 16.7).
Essa verdade deveria estar totalmente impregnada em nossa mente, sabedores que Deus privilegia e recompensa o comportamento (caráter e fidelidade), e não a aparência física.
Sabemos que é injusto, à maioria dos mortais, competir no mundo da beleza física. Mas também sabemos que há coisas mais importantes que a aparência física, que é passageira, como está escrito: “A formosura é uma ilusão, e a beleza acaba” (Pv 31.30).
Jesus, o Filho de Deus, tinha uma aparência comum. Para identificá-lo entre os discípulos, Judas teve de lhe dar um beijo no rosto. Ele não era o bonitão que há séculos os artistas têm pintado em suas telas ou que os filmes mostram. É no mínimo curiosa a descrição que Dele fez o profeta Isaías: “Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse” (Is 53.2).
O que contava para Jesus, acima de tudo, era o Seu caráter e fidelidade ao Pai, não a Sua aparência. Em vez de buscar ser aceito e medido por valores mundanos ou religiosos arbitrários, Ele se entregou totalmente ao cumprimento da vontade de Deus, privilegiando a comunhão íntima com o Pai, pois isso era tudo o que realmente importava. Devemos seguir o Seu exemplo!
Olhe para dentro de você, busque encontrar os dons de Deus que o definem, e confie na direção do Senhor para viver a sua melhor história.
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém