Todo Carnaval é a mesma coisa: começa em fogo – o fogo da folia e dos prazeres da carne –, mas termina sempre em cinzas – as cinzas da desilusão, do sofrimento e da amargura. Cinza é um nome apropriado à inevitável ressaca moral da submissão a Momo, um “rei” momentâneo que depaupera as almas sedentas de sentido, e depois lhes devolve sequidão de estio emocional e aprisionamento espiritual. Porquanto, não custa lembrar que cinza é o nome dado ao que resta de uma combustão, fogo ou incêndio, com o seu efeito devastador de reduzir tudo ao pó.
Cinza é também o apelido do dia seguinte ao Carnaval. Embora tenha o seu sentido religioso, vem a traduzir, na verdade, o estado deplorável de milhares, quiçá, de milhões de vidas que depositaram suas parcas esperanças na folia carnavalesca. Depois do extravasamento das emoções e sublimações de problemas de toda ordem, acordam na quarta-feira de cinzas em meio às próprias cinzas existenciais, sem saber como reconstruir o que foi devastado pelos exageros de cunho moral, financeiro, físico e espiritual com que se submeteram ao tirano rei da folia.
No Carnaval, há os que procuram um divertimento salutar, principalmente em meios familiares; e há os que buscam em retiros ou encontros religiosos, fora do burburinho da agitação momesma, a paz e a tranquilidade de que tanto precisam. Mas em grande medida, há a multidão dos que decidem “liberar geral” e fazer tudo sem prestar contas de nada a ninguém. Isso é combustão, é fogo! É chama que ilumina almas ávidas de manifestar os recantos não visitados dos próprios desejos ocultos e inconfessáveis. É combustão que devora as certezas da moralidade e os limites da razão.
E assim, depois que aprontam, pintam e bordam, quando as coisas saem erradas, lamentam-se e se desesperam. Isso são cinzas, o borralho emocional de almas consumidas pelo fogo da imoralidade! São as sobras de escolhas erradas, as tristezas infindas e as depressões imobilizantes, as vergonhas inglórias de um passado que deixou marcas profundas e não pode ser esquecido.
Afora a fantasia, o marketing, o mercantilismo, os resultados econômicos e financeiros, quase sempre alheios aos carnavalescos em geral, vê-se um rastro de destruição com consequências prolongadas na sociedade, ilustrado pelo conhecido e nunca resolvido caso das “mães do Carnaval” e dos “filhos do Carnaval”.
Sabemos que, nesta época, um número considerável de adolescentes engravidam na primeira relação sexual; e, daí para frente, entram em futuro incerto; algumas iniciam-se na promiscuidade sexual, outras praticam aborto, e há as que dão à luz a seus filhos e os abandonam nas creches ou juizados.
A imprensa tem documentado, ao longo dos anos, este triste “fenômeno brasileiro”. Gravidez indesejada, abortos e recém-nascidos abandonados também são realidades estreitamente relacionadas com os excessos do Carnaval.
Acentuem-se a isso as situações irresolvidas de saúde pública (disseminação das doenças letais e sexualmente transmissíveis que ceifarão vidas preciosas) e as de cunho econômico-financeiras (empregos perdidos, débitos contraídos) que perturbarão a paz de indivíduos e famílias que forçosamente sentirão a falta destes recursos (humanos e financeiros) e chegarão ao próximo Carnaval sem terem se livrado dos fatídicos pesadelos.
Embora não consideremos estes fatos positivos, o registro deles pela imprensa é um grande serviço prestado à sociedade e merece a reflexão de todos nós, pois nele há lições que servem para o presente e para o futuro. Isso nos lembra que as importantes lições do fogo do Carnaval e das cinzas que lhe seguem não devem ser jamais desprezadas!
A Bíblia ensina: “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao final, dá em caminhos de morte” (Pv 14.12). Lendo a Palavra de Deus, descobrimos também que o Senhor quer o melhor para nós, como Ele mesmo afirma: “Os meus pensamentos a vosso respeito, diz o Senhor, são pensamentos de paz e não de mal, para vos dá o fim que desejais” (Jr 29.11).
As alegrias do Carnaval são passageiras. A alegria de Jesus é eterna. Lembre-se do que Jesus disse a pecadores sedentos: “Quem beber dessa água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.13).
Não estou falando de religião, mas do Salvador Jesus Cristo, que nos salva dos nossos pecados e nos livra da ira vindoura. Em vez do fogo estranho da combustão de almas e das cinzas da decepção, volte-se para Jesus, arrependa-se dos seus pecados e creia no Evangelho, e então descobrirá, aqui e agora, a verdadeira alegria da vida eterna! Amém!
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém