A miopia é uma condição de deficiência visual em que as imagens, quanto mais distantes, são vistas com menos clareza ou meros borrões. Metaforicamente falando, há uma “miopia moral” que descreve uma lamentável estreiteza de visão que impede as pessoas de discernir a verdadeira extensão do mal, suas consequências e, mais crucialmente, a falta de agudeza espiritual para identificá-lo e condená-lo. Agora, com o avanço tecnológico e a hiperconectividade, essa condição se tornou ainda mais insidiosa, camuflada em complexas teias digitais.
É inegável o fascínio humano por narrativas de catástrofe, escândalos e controvérsias. A mídia – e aqui incluo as plataformas de streaming, redes sociais e geradores de conteúdo de inteligência artificial – é mestra em explorar as mais ignominiosas facetas da condição humana. De documentários sobre crimes reais a algoritmos que nos servem notícias sensacionalistas, passando por séries que romantizam desvios de caráter e influenciadores que monetizam a discórdia, somos bombardeados por um “cardápio” variado que muitas vezes exacerba essa miopia moral. Para capturar nossa atenção em um mundo saturado de informação, esses conteúdos frequentemente invocam o que há de mais vil na natureza humana: violência explícita, intrigas políticas, a glamourização da imoralidade, a desconstrução de valores familiares e a celebração da esperteza em detrimento da ética. Tudo isso, ironicamente, por audiência, engajamento e visualizações.
Sem se darem conta de como a banalização do mal as afeta, as pessoas acabam por torcer silenciosamente pelo vilão carismático da série, ignoram a manipulação digital, aplaudem a “lacração” online que destrói reputações ou admiram o sucesso de figuras públicas questionáveis. Enfim, desejam estar na posição de quem “se deu bem” por meios tortuosos, ou elogiam a ousadia de quem rompeu barreiras éticas, tudo isso enquanto os algoritmos as alimentam com mais do mesmo, criando bolhas de realidade distorcidas. Esse é o admirável “mundo novo” do manipulável “gado velho” da existência humana decaída.
Essa capacidade intrínseca de dissimulação em relação ao mal tem um preço altíssimo em nossa sociedade, especialmente nos seguintes aspectos:
(1) Minar a nossa capacidade de indignação. Quando o mal se manifesta em escala global – seja através de conflitos distantes ou injustiças sociais amplificadas nas telas – e não esboçamos o menor sinal de tédio ou revolta, apenas porque não nos atinge diretamente, corremos o risco de abandonar a busca pela moral (o que é certo) e ética (o que é bom). Involuntariamente, começamos a aplaudir o errado, permitindo que o espectro da malignidade transborde do terreno da ficção e invada a nossa realidade cotidiana sem resistência.
(2) Tornar-nos profundamente egoístas, prisioneiros de nossas próprias bolhas digitais. Ela nos encerra em casulos existenciais, onde nos conformamos com nossos interesses pessoais e nossos próprios “feeds”, em detrimento do bem comum. É dessa vertente moralmente míope que advém, talvez, a persistência de uma cultura de “atalhos” e de “levar vantagem” — agora digitalmente replicada em discursos de ódio velado, disseminação de desinformação e a glorificação da individualidade extrema.
(3) Fazer-nos reféns da desesperança. Com o mal banalizado e a injustiça transformada em memes ou manchetes passageiras, a vida se reduz a estereótipos de esperteza e sagacidade vazias, onde a virtude parece antiquada e a integridade, ingênua.
Além de evidenciar uma miopia moral elevada, essas reações revelam a dura realidade de que a tessitura espiritual, moral e ética de nossa sociedade está seriamente comprometida. O problema primário não é a mídia ou a tecnologia, obviamente, pois são apenas ferramentas amplificadoras. Elas se alimentam, sim, do nosso latente desejo de consumi-las, e representam mais um sintoma no mostruário das indignidades humanas. O problema principal, como podemos ver, é a nossa natureza essencialmente comprometida com o egoísmo e a injustiça que dele resulta. O nível de comprometimento com esses desvios identifica o grau de miopia moral em qualquer área que se analise.
A miopia moral leva as pessoas a fazerem escolhas equivocadas, pois embora muitos saibam o que é certo, tenham acesso a informações e discernimento, acabam preferindo a opção de menor resistência. Tornam-se, assim, reféns da lei do menor esforço, buscando o mínimo necessário para se manterem confortáveis em vez de lutarem pelo máximo possível de justiça e verdade. Preferem o scroll infinito (rolagem de tela) à ação concreta.
É claro que o mal não prevalecerá para sempre. É óbvio que ainda há uma reserva moral de indivíduos e comunidades que resistem à decadência. A narrativa final da História, conforme descrita na Bíblia, nos assegura que o mal será subvertido, e que a justiça e a paz prevalecerão. Mas enquanto esse tempo não chega plenamente, cada pessoa precisa corrigir sua própria miopia moral.
Precisamos, pois, de “lentes” corretivas da miopia moral; e essa lente é a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada. É através dela que receberemos iluminação para acesso ao poder do Alto que nos levará a tomar uma posição inequívoca de fazer o bem, de viver uma vida irrepreensível e justa diante de Deus e do mundo. Sabemos que a volta do Senhor Jesus Cristo se aproxima e que, quer seja oportuno ou não, agora é o tempo de anunciar Jesus a todas as pessoas.
Pastor da Assembleia de Deus em Belém