Meu Amigo Sabe

Rene Lacoste, um dos maiores nomes do tênis no final da década de 1920, foi um atleta extraordinário. Vencedor de sete títulos Grand Slam em partidas simples, acumulou vitórias marcantes em Wimbledon, no Aberto dos Estados Unidos e no Aberto da França. Pela forma metódica, categórica e implacável com que dominava e desgastava seus adversários nas quadras, recebeu dos amigos um apelido emblemático: “Le Crocodile” (O Crocodilo). A alcunha traduzia com perfeição a sua tenacidade e resiliência.

Em vez de rejeitar a comparação, Lacoste a abraçou. Desenhou um pequeno crocodilo verde e pediu que o bordassem em seu agasalho de jogo. Anos mais tarde, estampou o mesmo símbolo em uma linha de camisas polo que revolucionou a moda esportiva e se tornou famosa no mundo inteiro.

Entretanto, enquanto multidões em muitos países vestiam a marca por mero prestígio ou apelo comercial, o réptil bordado tinha um valor incomparavelmente mais profundo para os amigos de Lacoste. Aqueles que conviviam com ele conheciam a verdadeira gênese da imagem. Se um estranho perguntava a Lacoste por que ele ostentava um crocodilo no peito, ele apenas sorria e respondia: “Meus amigos sabem”.

Um observador distante ou mal-intencionado, desconhecendo a intimidade do atleta, facilmente julgaria o emblema de forma equivocada. Diriam uns: “Ele usa um crocodilo porque é um homem frio e insensível”. Outros comentariam: “Trata-se de uma pessoa traiçoeira, de difícil convívio, perigosa como uma fera”. No entanto, a perspectiva dos amigos era oposta: o crocodilo não representava perversidade, mas garra, disciplina e perseverança.

Essa discrepância de interpretação é um fenômeno recorrente na história humana e nas Narrativas Sagradas. Frequentemente, a cultura popular ou a ignorância dos críticos distorcem o sentido dos símbolos e a reputação das pessoas, enquanto a perspectiva da intimidade e da verdade revela a essência real dos fatos.

Na História Antiga, o peixe (Ichthys) era um símbolo banal do comércio marítimo ou da alimentação cotidiana no Império Romano. Para os imperadores e governantes da época, os cristãos eram vistos como uma seita fanática, rebelde e ameaçadora à ordem pública. Contudo, durante as violentas perseguições nos primeiros séculos, os seguidores de Cristo usavam o desenho do peixe riscado na areia como uma senha secreta de comunhão. As letras da palavra grega ICHTHYS formava um acróstico: Iēsous Christos, Theou Yios, Sōtēr (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). Para os de fora, era apenas um risco passageiro; para os “amigos do Caminho”, era uma declaração de fé, esperança e fraternidade disposta a enfrentar a própria morte pelo “Amigo”.

O maior exemplo dessa inversão de significados, contudo, é a própria Cruz do Calvário. Para o Império Romano e para a sociedade do primeiro século, a cruz era o emblema máximo da vergonha, o instrumento de tortura reservado aos piores criminosos, rebeldes e escravos. Quem olhasse para Jesus pregado no madeiro veria, sob a ótica humana, o fracasso absoluto de mais um impostor condenado à morte trágica.

Mas para aqueles que andaram com Jesus, que ouviram Sua voz e experimentaram Sua graça, a cruz ganhou uma linguagem completamente oposta. Ela deixou de ser o símbolo da maldição romana para se tornar o monumento supremo do amor, da redenção e da determinação de Jesus Cristo em cumprir a vontade do Pai, entregando Sua vida em resgate da humanidade.

O próprio Jesus estabeleceu esse divisor de águas, antes de Seu sacrifício, ao declarar: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo 15.15). Apenas os amigos de Jesus compreendem a profundidade da cruz. Apenas quem desfruta de intimidade com Ele consegue ver através da aparente derrota o brilho da vitória eterna.

Na jornada da vida, é inevitável que enfrentemos julgamentos precipitados. Em variados momentos, pessoas que não conhecem sua história, suas lutas e suas dores colocarão rótulos injustos sobre você. Diante da incompreensão alheia, pergunte a si mesmo: essa avaliação vem de quem realmente me conhece e caminha ao meu lado, ou parte de quem observa à distância e não me conhece?

Imagine um amigo de Rene Lacoste olhando para o bordado da camisa e dizendo com orgulho: “Eu sei o que isso significa. Conheço a história, Lacoste é meu amigo”. Imagine, da mesma forma, um discípulo de Jesus contemplando a cruz e afirmando: “Eu sei o que aconteceu ali. Meu Amigo e Senhor venceu a morte por amor”.

E se os julgamentos humanos ainda assim pesarem sobre seus ombros, lembre-se de que o Senhor Deus sonda o seu coração, conhece cada detalhe do seu ser e, mesmo sabendo de todas as suas imperfeições, não lança nada em sua cara. Pelo contrário, Ele estende a Sua mão e lhe oferece uma aliança de amizade sincera.

Sejam quais forem as lutas pelas quais você está a passar, saiba que o nosso Deus e Pai conhece, em verdade, cada detalhe da sua vida e, mesmo assim, continua sendo “seu amigo”. Desse modo, você pode descansar, manter o coração em paz e, quando questionado, vir a responder com serenidade: “Meu Amigo sabe!”. Feliz Dia dos Pais!

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

CADB

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Convenção da assembleia de Deus no Brasil

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