Jesus deu uma ordem clara à Sua Igreja: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.15,16). Ele também disse: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Em suma, Jesus mandou a Sua Igreja pregar o Evangelho e fazer discípulos. E eles o fizeram fielmente, até que, certo dia, os discípulos foram chamados de “cristãos” (At 11.26). Só que isso nada tinha de elogio; era apenas um rótulo, um apelido às vezes pejorativo, pois eles eram “diferentes”.
Naquele tempo os discípulos eram lançados às feras. Quando o termo “cristão” pegou e o Cristianismo se tornou a religião majoritária e oficial de Roma, com o Imperador Teodósio, ser cristão virou algo “chique”, pois não havia mais perseguições e apenas se requeria deles mera formalidade exterior. Aconteceu de modo semelhante com o termo “evangélico” no Brasil. De um passado de perseguições inclementes, ocasião em que muitos, por causa de suas convicções, pagaram com a própria vida, hoje as coisas mudaram. Com inúmeras igrejas e teologias para todos os gostos (e desgostos), ser evangélico ganhou uma conotação “chique” que destoa de seu pleno significado.
Muitos acham que “evangélico” é um rótulo identificado naqueles que não matam, não roubam, não mentem, não têm vícios, vão aos cultos, vestem-se de forma modesta e decente e não falam coisas inconvenientes. Outros acham que o evangélico não precisa ser diferente, ou seja, pode viver do mesmo jeito que vivia antes, desde que pague os “pedágios religiosos” em forma de dízimos e ofertas, e faça as coisas “em nome do Senhor”. Já outros acham que tornar-se evangélico é o mesmo que adquirir um passaporte para um mundo-cor-de-rosa, virar um super-crente, jamais ficar doente, não ter crises financeiras, nunca ter problemas.
Embora eu respeite opiniões contrárias às minhas, entendo que ser evangélico é algo mais profundo, pois tem a ver com a mente e o coração, com uma radical mudança interior operada por Deus, e não apenas com meras atitudes exteriores. Pode-se tentar dar muitas definições, mas ser evangélico jamais passará disso: uma nova criatura a viver de conformidade com o Evangelho de Jesus Cristo.
Esse ponto tem sido ignorado e traz não poucas confusões às mentes das pessoas. Quando as pessoas cometem ilicitudes e imoralidades, mas se dizem evangélicas e defendem que “Deus quer é o coração” apenas; quando bandidos contumazes cometem todo tipo de atrocidade, mas no dia seguinte a serem pegos já se postam com a Bíblia na mão e se dizem “evangélicos”; quando desvios de comportamento procuram ser atenuados com essa palavra mágica; sim, então podemos ver que algo está errado não só no entendimento do que significa ser evangélico, mas no próprio “modus vivendi” das pessoas que trazem afrontas e vitupério ao bom nome de Cristo.
Penso que o problemas dessas pessoas, além do desconhecimento da Palavra de Deus, é que seu desvio espiritual fá-las querer um cristianismo sem Cristo, um discipulado sem cruz, privilégios sem responsabilidades, religião sem amor e cultos sem adoração.
Se o evangélico é um discípulo que segue a Jesus Cristo, tomemos uma expressão do Sermão do Monte, para julgarmos a situação segundo a reta justiça. Jesus disse aos discípulos: “Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte” (Mt 5:13).
A função primária do sal é salgar, preservar e dar sabor. O propósito da luz é iluminar, tornar claro. Jesus utilizou essas ilustrações para deixar bem claro que era isso mesmo que esperava de Seus discípulos, que a influência desses fosse semelhante à do sal e da luz em relação à sociedade em geral. Louvo a Deus pelos milhões de evangélicos que são fiéis a Deus e vivem de modo digno do Evangelho, pois honram o bom nome de Cristo e demonstram, com o seu exemplo, que Jesus estava certo.
Quando a sociedade julga os evangélicos por aqueles que não vivem de acordo com o Evangelho de Cristo, podemos tirar disso uma lição. É que a sociedade espera que sejamos realmente diferentes, que vivamos o que pregamos, não o contrário. Quando somos expostos pela imprensa por causa de uns poucos “convencidos” (mas não convertidos), isso só deve nos fortalecer no propósito de continuarmos como discípulos de Cristo, sendo sal e luz em um mundo que se revolve em suas próprias trevas espirituais e morais.
Além disso, lembremos do veredicto de Jesus: “Pelos seus frutos os conhecereis… Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.20).
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém